E se houvesse um espaço na Internet onde a gente pudesse contar aqueles causos que nossas avós nos contava, e tivesse liberdade pra criar nossos próprios causos para as gerações futuras? O projeto "Causos da Nossa Terra" surge justamente pra isso - preservar a cultura regional, incentivar a criatividade e proporcionar o mesmo prazer em ouvir histórias, que tivemos em nossa infância, para as novas gerações!



sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Causos da Fazenda Santo Antonio da Cachoeira

 * Colaboração de Lauro Maia Cavalcanti, restaurador em 
São José do Barreiro e dono do blog http://clubdos200.blogspot.com.br/

Crônica de um dia na roça - causo contado pelo Lolô, num bate papo às 6h da manhã,
enquanto a padaria não abre aqui em Formoso.

      Esta história tem como pano de fundo o Vale Histórico Paulista.
      Mais ou menos lá pelos anos 30, chegava para o Dr Luiz Oscar de Almeida Maia uma carga viva de 90 éguas, da melhor qualidade, vindas de trem de São Paulo até a cidade de Queluz. Embora a chegada da estrada de ferro estivesse cada vez mais limitando o trânsito de tropas de mulas como meio de transporte, ainda em nossa região, o costume ainda fazia poeira na estrada.

      Quando carga grande de animais chegava assim, Zé Campeiro, Juvenal, Francisco Barbosa e Bem-Vindo já sabiam que os carrapatos iam aumentar nos pastos da Fazenda. Era um tal de viver coçando que só vendo! Os três trabalhavam na Fazenda Santo Antonio da Cachoeira. Zé Campeiro era o mais antigo e também o mais querido pelo dotô: diziam que era ele descendente direto dos últimos escravos que sobreviveram à escravidão no Vale. Assim como muitos, ao encontrar casa grande com bom Senhor, estes fizeram dali sua morada, e novos dias foram apagando memória de um tempo que não merece ser lembrança. Juvenal era jongueiro dos bons. Ao se ouvir meia duzia de bater de palmas no terreiro, lá ia ele chegando com sua ginga de pés descalços e paletó no dorso.

      Bem-Vindo lhe dava as boas vindas ao anunciar sua chegada. A toada ecoava aos ventos acordando Caxambus, candongueiros e pandeiros. Junto com a criação chegava também a família. Dr Luiz já tratava logo de alugar a jardineira do Clube dos 200 para assegurar o conforto da chegada de seus entes queridos. Da praça de Formoso até a travessia do ribeirão, chegavam todos no veículo alugado. Dali pra frente era na canela, de mula ou a cavalo. Quando vinha a família toda, era preciso o carro de boi ajudar a juntar a fiarada toda. Com carinho e muita paciência, Zé Campeiro no colo a todos ajudava a travessar: Margarida, Ilka, Carmitinha... Eram muitos! Entre legítimos e agregados, cartório nenhum no mundo garantiria maior autenticidade que seu imenso coração. Francisco Barbosa e Bem-Vindo vinham com a carroça, e o Dr. Luiz em seu burro de estimação, o veado. O veado era um burro xique no úrtimo! Corpo bege por inteiro, teve ainda um capricho no detalhe de seu rabo, que era todo branco. O xodó era tanto que ninguém, com exceção de sua pessoa, nesse burro montava. Dr. Luiz era Homem da Justiça. Era homem respeitado não por ser temido - seu respeito vinha do reflexo de sua indole. Só defendia quando era certo, "Fumus Boni Iuris". Sua labuta no ofício nunca teve como fim o capital: suas causas eram verdadeiramente justas. E assim o Fórum de Bananal sempre ao seu dispor parecia estar. Muitas vezes nem era preciso ao Fórum chegar para que seu senso de justiça começasse a funcionar. Ai daquele que flagrado fosse maltratando algum animal ou castigando alguma criação! Peão apeava e seguia a pé sem nem ao menos poder se lamentar, tal era o sabão que haveria de tomar. Mas era na Fazenda Cachoeira que Dr.Luiz fazia mesmo jus aos seus dias de vida. Tratava de toda criação com maior zelo e carinho, tendo sempre ao seu lado Francisco Barbosa e o fiel escudeiro Zé Campeiro.

      No dia da cruza, Bem-vindo e Zé Campeiro iam mais cedo que de costume ao batente. Na hora do acasalamento, burro cego de amor vai com tanta vontade que as veiz demora a encontrar o caminho da dita cuja. Dr. Luiz, de perto, aprecia a empreita e grita ao Zé Campeiro, seu predileto:

- Já entrou Zé, já entrou? - e o inocente responde:
- Calma que tá entrando, dotô!

      Como era de costume seu, tratamento igual para com todos, a pergunta seguiu também a Bem-Vindo, para este não enciumar:

- Já entrou, Bem-Vindo, já entrou?

      Mas Bem vindo, bicho desconfiado, silenciava. O Dr. então estranhava:

- Ô Bem-Vindo! Não escuta não?

      Meio acabrunhado, Bem-Vindo quebra o silêncio:

- Óia Dotô, o Zé disse aqui que sim, mas eu memo não tô sentindo nada! Tô na torcida pra que tenha sido memo é na mula!

domingo, 23 de setembro de 2012

Com Versos Converso, por Nilson e Zé Ernesto

COM VERSOS CONVERSO
Nilson e Zé Ernesto

Se você se sente ansioso; e tá divera saudoso;
Das beleza do sertão; apois conheça Preibuna!!
E preencha essa lacuna, dentro do seu coração.
Temos festa o ano inteiro; com roda de violeiros;
E serenatas ao luar. Venham sabureár o fogado,
Pelos bares ou no mercado, com certeza irão gostar.
Venha beber água da bica, quem toma dela aqui fica;
Eu posso te garantir. Pois tem uma lenda que diz:
“Quem bebe finca raiz” e nunca mais quer partir.

Venham!! - Conheçam a “Princesa da Serra”;
Onde o canário da Terra, canta memo!! Inté na cidade!
É um gosto da rapaziada, ver aquela passarada,
Gorjeando em liberdade! E pela devoção, eu proponho:
Conheçam Matriz de Santo Antônio!
Monumento à beleza e à criatividade.
Venham ver os casarões desde os tempos dos Barões,
Símbolos da prosperidade.
Venham passear na roça; rever fazendas, pousadas, palhoças!
E as riquezas do lugar. Venham ver quanta fartura;
Tomar cachaça da pura, de aguçado paladar!
Ói escute o queu vou dizê; Cachaça pá nóis é Cultura!!
Não é sepurtura, a arte é sabê beber!!!
Vocês que estão no Palácio, venham ouvir meu pobre pinho;
Não tem o cheiro do vinho, das uvas frescas do Lácio; (reg d Port)
Mas tem o gosto da Inácio, caninha que vem do Porto;
Por onde corre fartura, pras terra do Pereira e Jotinha;
Que faz mascavo e cultura na forma de garrafinha.
É!!- Venham ouvir meu pobre pinho, que tanta gente admira;
Inspirado na Marvada; que a Neide com todo carinho;
Também faz pa peonada, aqui deste “CHÃO CAIPIRA”!!
E eu podia falar de outras tantas. do Cumpádi (Antonio Fernandes)
Da Paquinha; Vassourinha... que outro dia pensando,
Enquanto da roça vinha, com pressa!! Mai mencontrei
com a Mula Preta, que lembrando três meninas
elegemo a Paulistinha... como a Rainha da Pedra!
-Heêê!! Quanta coisa aqui tem, coisa booa!

Delícias do milho verde?? Ah! –tem na estrada o ano inteiro!!
E a qualidade?? –É caseiro! Tem amor no seu tempero!
Feitos com amor e carinho, pamonha, bolo e curau;
tem até no carnaval; e já virou tradição o mutirão Vicentino!!
Milhofolia!! Nôtra palavra: PAMONHADA!!

E aquele CAFÉ encorpado!? Bem ao gosto do passado??!!
Hem?!! Seu Otávio!! D.Maria!! (saudosa)Seu Bernardo!!!
Se quizé... é adoçado com rapadura!! E na mesa uma fartuuura:
Bolinho doce, sargado. Paçoca, Mendoím torrado!!
Cês conhece o resurtado?? É o nosso viagra afamado!! E barato!
Esse eu num conto o lugá. Tem que vim e percurá!!

E do Manézinho os pastéis??Hem?! Ocê pode esquecer a dieta,
O regime, pois não é crime se ocê comer mais de Déizz!!
Meu cumpádi, vai guardando esta verdade
na memória, e pode crêr; quem por aqui apeia,
que tem a terra na veia ; se identiiiiiiifica à vontade!
Nunca mais, tenho certeza, esquecerá as beleza
e as prendas aqui da cidade!!

E prá falá mais bunito, de um modo caipirudito,
Pontuando o essencial;
Nossa Feira de Turismo; vejam só, não tem igual!
Resume a história e ela é nossa!!
É preciso conhecer, para amar e preservar.
Em cada tenda uma lenda e sua impressão digital!!
São sabores; fazeres, são saberes, para todos conhecerem!!

E prá encerrar eu garanto, que o seu amor será tanto;
Pois com Seu Nilson, por exemplo, acunteceu,
-Prele sair daqui um dia... jurô por Virgem Maria;
- Ah! Só com o chamado de DEUS!!!!

Espírito Santo, por Zé Ernesto

ESPÍRITO SANTO 
(Bairro rural de Paraibuna/SP)
Zé Ernesto

Paraibuna, meu Sinhô, é um lugá rico de amô.
Pela sua natureza, de exuberância!!
É testemunha ocular da minha infância;
Dos meus dias galopantes do passado.

Porto, Espríto Santo, Varjão, Lajeado!
Onde corri muito atrás de gado; vacas brabas e garrotes.
O cavalo suado a dar pinotes; mas eu, que na sela tinha apoio,
Abria a garganta e dava aboio, que abalava os morros do Pau Daio!!

Depois... ganhei mundo, corri trecho.
Mas, um dia, na solidão da “cidade grande”,
Tomado pela saudade...

Assuntando, matutando... eu arresorvi.
Pra mim, acabô. Esta vida é um espanto!
Eu quero sair daquí; vou voltar pro Espríto Santo!
Lá pra terra onde eu nasci.

Vou rever meus camaradas, amigos de cantoria!
Viver de minhas memórias, inquietações, poesias.
Voltar pras minhas jornadas, de bola, carteado e cachaça;
Regadas a torresminho, mocotó e frango caipira.

Ajudá nas lidas de gado, tirar leite no currá;
Escutando as modas no rádio, pru mode as vaca amanssá.
Pois ficavam tão serenas, como as tardes que eu aprendi;
Jogando cunversa à toa, com a gente morena, tão boa,
Numa paz que eu nunca vi!

Ah! -que saudade bendita, do berço da minha vida!
Na refeição? -Arroz com feijão! Na mistura, a “pururuca”!
Tomá café com farinha, adoçado com rapadura.
Fazer minhas pescarias e me banhar todos os dias...
Nas águas... do Rio... Fartuuura!!!!!

Seu Siqueira do Violino e Monselhor Ernesto

*Colaboração de ZÉrnesto

[Este é] "o registro saudoso que farei de duas personalidades que me foram singulares desde a infância. Ambas pelo caráter e carinho que emanavam. Nutriam-se de uma amizade contagiante. Seu Siqueira do Violino e Monsenhor Ernesto, Pároco e Poeta."


SERESTEIROS 
Benedicto Siqueira e Silva – (1902/1996) Paraibuna/SP 
empresta seu nome à Fundação Cultural local


Naquelas noites de um luar de prata,
Era “Siqueira” no violino, Chico no violão,
Caio na flauta, o Nego no rabecão.
Estava assim formada a serenata.
Aquele grupo sempre à hora exata,
Começava de fato a execução.
Nunca faltou no rol daquela nata,
O incorrigível boêmio e folgazão.



Era o Nhonhô, com o cavaquinho ao peito,
Tirando som tão limpo e tão perfeito,
Que ele de tanto gosto, cochilava.
Mas se o grupo de novo caminhava,
Ele ficava ali de pé, sozinho,
Com o queixo encostado ao cavaquinho.


"Esta paisagem social urbana é muito objetiva do interior brasileiro, mas que o tempo vem apagando, os 'amigos da cantoria' de Paraibuna, a partir da presença do Sr Nilson (1993). Ele sempre citava Cecília Meireles pra dizer: "Não invejo as cigarras, eu também vou morrer de cantar!" É hoje mais um seresteiro no céu. Mas eu dizia que os 'amigos da cantoria' a tem mantida viva e estimulada. Na Paraibuna, em noites claras de lua, ainda se vê serenata pelas ruas."


LUAR DE PARAIBUNA  
Monsenhor Ernesto Almírio de Arantes (1900/1974)
morou por 40 anos em Paraibuna
Empresta seu nome à Praça central ou 'Praça da Matriz'



Ó como é belo este luar da minha terra;
Maravilhoso, esplendoroso e encantador!
Tudo revive nesta noite; e a lua encerra,
Terno convite para a vida e para o amor!


 Um bando alegre de pessoas vem cantando,
Hinos e loas para a lua prateada.
E lá ao longe, um carro, de leve, vai chiando,
De vida enchendo a solidão daquela estrada.


Parece um mar de luz, ondeante sobre a mata;
A campina banhando e o matagal virente:
- Vai penetrando tudo o seu fulgor de prata!
- Vai enchendo de paz o coração da gente!


Ó Paraibuna, terra encantadora e linda;
És recanto feliz onde esta vida estua!
És mais encantadora e fulgurante ainda,
Ao sonho sideral desta noite de lua!

Poema por Zenilda Lua


Foi num mês de Primavera
que eu disse com alegria
Mãe, pretendo viajar
daqui há quarenta dias
vou pra São José dos Campos
Conhecer mais Poesias

Tá maluca, endoideceu?
que invento sem futuro
que Campos, que Santo é esse?
Sossegue ou lhe desconjuro
deixe esse sonho pra outra
Oh conversa de menturo!

Mãezinha vou lhe dizer
não tem mais sossego não
eu conheci um Poeta
a quem dei meu coração
minha alma meu destino
amor, pensamento e mão

Não acredito em destino
em doação corporal
e as noites de fogueira?
as quermesses de Natal?
as quadrilhas de São João
cordel e festa rural?

Vai trocar nosso folclore
e Tradição cultural
por terra desconhecida
amorzinho de quintal
Pense um pouco, tome tento
vá declamar seu jogral

Guardei o jogral na mala
junto as saias coloridas
um chinelinho de couro
livros e música preferida
Cheguei no mês de outubro
com frio mas, feliz da vida!

Foi assim que deparei-me
com pessoas fabulosas
gente simples, importantes
bons de cousos, versos, prosa
viola, teatro e canto
Oh terra maravilhosa!!!!


Zenilda Lua

Para Acalentar Detalhes

*por Zenilda Lua
 
Disse-me que passava por tratamento de saúde ranzinza. Tinha ficado internado por longos cinco dias. Só poderia tomar cerveja sem álcool, que merecia um alento poético e que não descansaria enquanto não realizássemos outro sarau "daquele".  - Em 2010 fizemos o Flores em Flor sarau lítero musical com declamações e cantorias.
Desde sempre busquei propagar a obra literária e musical de nossa gente, juntar os amigos, botar som nas risadas, convocar sanfoneiro, estender toalha de chita, flar de beirais e rosas, noites e quintais. Julgar-me louca sem poder de encantos.
Prometi ao Fernando que iria cavoucar um espaçozinho em alguma instituição que prefiro para realizarmos uma apresentação de música e poema.

Não cavouquei nada! Não deu tempo. O convite veio feito claridade que impede as ruas do sono.
Amanda Silva, do SESC, convidava-me para fazer a curadoria de saraus dentro do projeto; A Cidade e seus Personagens.
A essência captada do sutil queixume virou festa. Vários e-mails e telefonemas. Carecia reunir a tropa, escolher o texto, acertar no desenho, encontrar a roupa merecida de amor.
Fernando Fernandes estava salvo. Nenhuma fraqueza lhe atingia mais. Ninguém sofreria de espera, de promessa desvingada.
Dentro em breve até o silêncio ganharia melodia e na curva das noites explodiria poemas de todas as cores, revelando sentidos, rumores de bem em linha de espumas.
O espelho e a memória. As poetas e os meninos. O biscoito de polvilho, o café passado na hora, o chocolate amargo. Dúzia de maçãs compradas no supermercado próximo. A foto das filhas, as notícias do serviço, o desconforto do sol, o cavalo marinho pendurado no teto. Tudo aberto para os ritmos da música, poesia e coração.
O tambor da Mirian, a voz linda da Rossana, a serenidade do Ronaldo adiando coisas para chegar na hora.
Tudo se apresentando num relance, sob um êxito sublime Para Acalentar Detalhes.

sábado, 22 de setembro de 2012

Sobre o projeto

E se houvesse um espaço na Internet onde a gente pudesse contar aqueles causos que nossas avós nos contava, e tivesse liberdade pra criar nossos próprios causos para as gerações futuras? O projeto "Causos da Nossa Terra" surge justamente pra isso - preservar a cultura regional, incentivar a criatividade e proporcionar o mesmo prazer que tivemos em nossa infância em ouvir histórias para as novas gerações!