* Colaboração de Lauro Maia Cavalcanti, restaurador em
São José do Barreiro e dono do blog http://clubdos200.blogspot.com.br/
Crônica de um dia na roça - causo contado pelo Lolô, num bate papo às 6h da manhã,
enquanto a padaria não abre aqui em Formoso.
Mais ou menos lá pelos anos 30, chegava para o Dr Luiz Oscar de Almeida Maia uma carga viva de 90 éguas, da melhor qualidade, vindas de trem de São Paulo até a cidade de Queluz. Embora a chegada da estrada de ferro estivesse cada vez mais limitando o trânsito de tropas de mulas como meio de transporte, ainda em nossa região, o costume ainda fazia poeira na estrada.
Quando carga grande de animais chegava assim, Zé Campeiro, Juvenal, Francisco Barbosa e Bem-Vindo já sabiam que os carrapatos iam aumentar nos pastos da Fazenda. Era um tal de viver coçando que só vendo! Os três trabalhavam na Fazenda Santo Antonio da Cachoeira. Zé Campeiro era o mais antigo e também o mais querido pelo dotô: diziam que era ele descendente direto dos últimos escravos que sobreviveram à escravidão no Vale. Assim como muitos, ao encontrar casa grande com bom Senhor, estes fizeram dali sua morada, e novos dias foram apagando memória de um tempo que não merece ser lembrança. Juvenal era jongueiro dos bons. Ao se ouvir meia duzia de bater de palmas no terreiro, lá ia ele chegando com sua ginga de pés descalços e paletó no dorso.
Bem-Vindo lhe dava as boas vindas ao anunciar sua chegada. A toada ecoava aos ventos acordando Caxambus, candongueiros e pandeiros. Junto com a criação chegava também a família. Dr Luiz já tratava logo de alugar a jardineira do Clube dos 200 para assegurar o conforto da chegada de seus entes queridos. Da praça de Formoso até a travessia do ribeirão, chegavam todos no veículo alugado. Dali pra frente era na canela, de mula ou a cavalo. Quando vinha a família toda, era preciso o carro de boi ajudar a juntar a fiarada toda. Com carinho e muita paciência, Zé Campeiro no colo a todos ajudava a travessar: Margarida, Ilka, Carmitinha... Eram muitos! Entre legítimos e agregados, cartório nenhum no mundo garantiria maior autenticidade que seu imenso coração. Francisco Barbosa e Bem-Vindo vinham com a carroça, e o Dr. Luiz em seu burro de estimação, o veado. O veado era um burro xique no úrtimo! Corpo bege por inteiro, teve ainda um capricho no detalhe de seu rabo, que era todo branco. O xodó era tanto que ninguém, com exceção de sua pessoa, nesse burro montava. Dr. Luiz era Homem da Justiça. Era homem respeitado não por ser temido - seu respeito vinha do reflexo de sua indole. Só defendia quando era certo, "Fumus Boni Iuris". Sua labuta no ofício nunca teve como fim o capital: suas causas eram verdadeiramente justas. E assim o Fórum de Bananal sempre ao seu dispor parecia estar. Muitas vezes nem era preciso ao Fórum chegar para que seu senso de justiça começasse a funcionar. Ai daquele que flagrado fosse maltratando algum animal ou castigando alguma criação! Peão apeava e seguia a pé sem nem ao menos poder se lamentar, tal era o sabão que haveria de tomar. Mas era na Fazenda Cachoeira que Dr.Luiz fazia mesmo jus aos seus dias de vida. Tratava de toda criação com maior zelo e carinho, tendo sempre ao seu lado Francisco Barbosa e o fiel escudeiro Zé Campeiro.
No dia da cruza, Bem-vindo e Zé Campeiro iam mais cedo que de costume ao batente. Na hora do acasalamento, burro cego de amor vai com tanta vontade que as veiz demora a encontrar o caminho da dita cuja. Dr. Luiz, de perto, aprecia a empreita e grita ao Zé Campeiro, seu predileto:
- Já entrou Zé, já entrou? - e o inocente responde:
- Calma que tá entrando, dotô!
Como era de costume seu, tratamento igual para com todos, a pergunta seguiu também a Bem-Vindo, para este não enciumar:
- Já entrou, Bem-Vindo, já entrou?
Mas Bem vindo, bicho desconfiado, silenciava. O Dr. então estranhava:
- Ô Bem-Vindo! Não escuta não?
Meio acabrunhado, Bem-Vindo quebra o silêncio:
- Óia Dotô, o Zé disse aqui que sim, mas eu memo não tô sentindo nada! Tô na torcida pra que tenha sido memo é na mula!
